Wednesday, February 21, 2007

PROUDHON, PROFESSOR DE HISTÓRIA


Proudhon, professor de história: este titulo pode surpreender pois, contrariamente a Michelet, Proudhon não é nem professor nem historiador. Contudo, nós iremos tentar justificá-lo, examinando os benefícios de Proudhon com o ensinamento da história.
Efectivamente, à leitura da obra de Proudhon, é evidente que a história tem um lugar considerável pelo número de páginas que lhe são consagradas e pelo papel que Proudhon lhe atribui. Por outro lado, é evidente também que um dos principais objectivos de Proudhon é a “démopédie”, ou seja, a educação do povo, que lhe deve permitir ter o seu destino na mão. E a história é para Proudhon um dos elementos essenciais desta educação.
Assim, nós tentaremos responder às seguintes questões: que história quer Proudhon ensinar? Que pedagogia de história decide adoptar?
Em primeiro lugar, nós constatamos uma omnipresença da história na obra de Proudhon, pois o pensamento do filósofo consolida-se na continuidade histórica: “Toda a verdade é móvel, histórica”, afirma ele na Filosofia do Progresso. Por outro lado, Proudhon é um apaixonado pela história, possui uma vasta cultura, adquirida por vezes com os seus estudos e com as leituras pessoais várias e que é inquieto ao fazer desenvolver os seus leitores.
Assim, o lugar consagrado aos desenvolvimentos históricos é considerável, do princípio ao fim da sua obra: ele actua, quer seja em grandes sobrevôos da história da humanidade centrados sobre os temas próximos Proudhon, como a Justiça, a Revolução, o mutualismo, quer sejam alusões a acontecimentos precisos que servem para apoiar a sua argumentação ou para reter a atenção do seu leitor.
Com efeito, para Proudhon, a história é útil porque, composta de factos concretos, reais, ela possui um valor demonstrativo e ela dá lições aos povos: “o tempo é pois o critério das sociedades: sob este beneficio, a história é a demonstração dos erros da humanidade pela reacção ao absurdo”.
A história aparece pois dotada por ela mesma, de grandes qualidades pedagógicas. É por isso que Proudhon, a um momento da sua vida desejou escrever verdadeiros livros de história, sózinho ou com colaboradores.
É durante o ano de 1852 que Proudhon, abandonando a economia e a política, torna-se historiador. Diante da decepção causada pelo insucesso da 2ª República e pelo sucesso do golpe de estado de Louis-Napoléon Bonaparte, o filósofo teve a necessidade de apoiar-se sobre a história para dar mais fundamento às suas ideias, mas por outro lado, devido à censura imperial, ele teve mais dificuldade em publicar as obras de economia social e de política.
Como costume, Proudhon vai mais longe, ele actua para compreender toda a história da humanidade. Em Fevereiro de 1852 ele procura a colaboração de históricos ilustres para este projecto, como testemunha a carta a Michelet, a 1 de Fevereiro: “Nós compreendemos tudo que, ao que quer que ele chegasse… ele precisaria de trabalhar seriamente na educação da época e retomar do início quase todo o círculo do ensinamento.
Entre as obras importantes a executar é-nos apresentada uma biografia universal, quarenta a cinquenta volumes em duas colunas.
Desejaria-se ter a vossa colaboração e a do vosso amigo, Sr. Quinet, etc.”
Esta obra colossal não verá nunca o dia, mas em 1851 Proudhon não renuncia aos seus projectos históricos, nós sabemô-lo pelos seus cadernos. Ele empreende uma história universal, cujo título seria Cronos (o Tempo). Ele pede aos colaboradores para recolher factos e documentos, mas ele decide redigir sozinho a obra. Após a sua morte, reencontram-se 160 folhetos que Langlois publicara em 1883 sob o título de Casarismo e Cristianismo. Lá encontram-se notas mais ou menos redigidas, mais ordenadas cronologicamente de 610 a.C. a 476. Ele actua para Proudhon estudar o fim da Antiguidade, afim de mostrar que o messeanismo, nascido em Itália, têm um ponto em comum essencial que é o seu objectivo de soberania universal.
Proudhon falhou, pois, a sua tentativa em escrever verdadeiras obras históricas, não somente por falta de tempo, mas também porque estes não estavam absolutamente nas “cordas” do filósofo “bisontin”.
Mas Proudhon não renuncia portanto a pedagogia da história e ele interroga-se bastante sobre a significação dos factos históricos afim de saber que história é necessário ensinar.
Efectivamente, a História não é só a sequência dos acontecimentos que constituem o passado da humanidade, ela é também a sua interpretação, afim de esclarecer as leis da evolução humana. A filosofia da história de Proudhon vai enriquecer-se com os anos e o confronto com os acontecimentos históricos, em particular a colocação da 2ª República. Assim, diante do insucesso de suas promessas, Proudhon, nas Confissões de um Revolucionário, procura compreender as forças na obra do seu século:
“Abandonado às minhas próprias luzes, eu procuro reconhecer-me sobre este terreno cheio de política e de história…
A Sociedade, como o Tempo, apresenta-se ao espírito sob duas dimensões, o passado e o futuro. Compreenderemos o pensamento… as duas dimensões da história; o conjunto formará o sistema social completo… no qual as anomalias e os acidentes servirão para melhor realçar o pensamento histórico, a ordem.
Assim, o sistema social, na sua verdade e integridade… só nos revelado no fim dos tempos… A única coisa que nos foi devolvida nesta filosofia da humanidade progressiva, é, conforme a sã inteligência do passado, preparar continuamente o nosso futuro”.
Proudhon está pois ligado a uma história pedagógica, ou seja, útil para o futuro da humanidade. Ele não busca o prazer da erudição, pois os factos históricos em si mesmos não lhe interessam. Ele actua acima de tudo, para si, em aproximar, encontrar uma ordem no seu desenvolvimento e finalmente o seu juízo profundo. Assim, entre as diferentes concepções da história da epóca, que ele apresenta com clareza e objectividade, Proudhon escolhe “o método filosófico”, que ele estima ser o mais eficaz para alcançar ao seu objectivo:
“Existem duas formas de estudar a história: uma que eu chamarei de método providencial, outra que é o método filosófico.
A primeira consiste em repôr a causa dos acontecimentos, quer seja a uma vontade superior… que é Deus; quer seja a uma vontade humana momentaneamente colocada de maneira a agir sobre os acontecimentos pelo seu livre arbitrío como, Deus.
Método filosófico, reconhecendo que os factos particulares nada têm de fatal, que eles podem variar ao infinito, ao sabor das vontades que os produzem, consideram-os todos entretanto, como dependentes das leis gerais; inerentes à natureza e à humanidade. Estas leis são o pensamento eterno, invariável da história”.
Em 1849, Proudhon adopta pois, uma filosofia da história, onde o determinismo e a liberdade se equilibram e até coexistem harmoniosamente, já que tudo ao obedecer às leis tais como a evolução da humanidade em direcção à Justiça, a história não se faz somente com a colaboração dos povos que podem assim atrasá-la ou acelerá-la. É o que explica que os períodos do progresso alternam com os períodos da decadência, como o demonstra o novo estudo da Justiça, com o título significativo: “Progresso e decadência”.
Após ter definido o progresso e estudado as condições da sua eclosão, Proudhon interroga-se sobre a existência de épocas de declínio e, dando uma parte de responsabilidade às instituições políticas e à sociedade, ele vê na liberdade do Homem a causa principal de toda a decadência, já que ela dá-lhe a possibilidade de escolher o mal, ou seja, afastar-se da Justiça:
“A Justiça sendo, como nós o dissemos, o pacto da liberdade… é claro que este movimento livre no seu princípio, livre nos seus motivos, é independente das leis orgânicas ou fatalidades da natureza. esta concepção geral do percurso da Justiça permitirá tomar-mos conta da quantidade dos acidentes, hesitações, atrasos e decadências cuja história da humanidade abunda”.
Assim a articulação entre Justiça e Liberdade junto de Proudhon permite explicar os altos e baixos da história humana sem nenhum fatalismo. Efectivamente, a história permanece aberta, assim o estará já que o homem pode e deve agir para dominar o seu destino. Esta acção só tomará fim com a existência da própria humanidade, pois Proudhon exclui todo o resultado a um novo paraíso terrestre, a uma nova idade de ouro. E neste percurso infinito da humanidade em direcção ao progresso, o papel do povo é essencial, pois para o filósofo “bisontin” só existe uma verdadeira revolução inferior, ou seja, a do próprio povo. Mas ao analisar as revoluções francesas desde 1789, Proudhon constata que elas falharam em grande parte pela falta de maturidade do povo, o poder foi pois, confiscado pela burguesia. Assim, o filósofo considera que a sua missão consiste em fazer amadurecer o povo, em educá-lo e que a história é o instrumento indispensável desta “démopédie”.
A pedagogia histórica de Proudhon, original e inovadora é marcada pelo objectivo final a atingir: fazer do povo o actor consciente da sua própria história. Assim o ensinamento deve adoptar novos métodos para ser acessível ao mesmo tempo pelo povo:
“… De acordo com a razão popular é necessário abandonar o método analítico e dedutivo… e substituí-lo por um método universalista e sintético em maior relação com a razão das massas.
É sempre a razão superior das coisas que nós procuramos. Filosofar por diversas vezes, à maneira de Sócrates, será pois… o percurso a seguir num ensinamento filosófico-jurídico destinado ao povo”.
No exposto dos seus métodos pedagógicos, no início da Justiça, Proudhon toma pois o sentido oposto do ensinamento da história da sua época que consistia sobretudo numa memorização das datas e a uma compilação dos acontecimentos na ordem cronológica. No melhor dos casos, este factos históricos seriam religados entre si e explicados, mas de uma forma que Proudhon recusa, ou seja, por uma causa superior (a Providência divina ou o grande homem omnipotente).
Proudhon, que conhece o povo, afirma que este último não tem tempo a perder com a ladainha das datas e dos factos e enaltece um ensinamento sintético e concreto que possa ir imediatamente ao essencial e que é forte e original para a metade do século XIX.
Proudhon coloca o seu método em aplicação nos seus livros, mostrando as suas qualidades de historiador e de pedagogo. Assim, no início das Confissões de um revolucionário, ele resume em algumas páginas a evolução da sociedade francesa desde 1789, elaborando um modelo de síntese padagógica com o objectivo de dar em pouco tempo, uma cultura histórica ao povo. Do mesmo modo, desde as primeiras páginas da Justiça, ele crítica os historiadores que se contentam em colecionar os factos e proclama a necessidade de buscar a sua “razão”. Proudhon tem assim a vontade de compreender e de explicar o essencial em história: ele não actua nas batalhas ou nas tomadas de posse para tal homem político, mas em forças profundas da obra, ou seja, numa revelação progressiva da Justiça no mundo:
“Acima de tudo, na natureza e na sociedade, gira sobre a Justiça, que é o centro, base e extremo, substância e forma de todo o facto como de toda a ideia, é evidente à priori, que tudo pode concentrar-se directamente na Justiça”.
“… A história ao revelar-se sob um novo dia, mostrará um panorama, o pensamento, o poder e todas as riquezas da Revolução”.
Segundo Proudhon, o papel do historiador é simples: ele actua ao revelar ao povo a Justiça em andamento, de a fazer surgir da opacidade dos acontecimentos. Este objectivo permanece uma verdadeira obsessão para o filósofo que o proclama no fim do primeiro estudo da Justiça e que procura atingir pelos inúmeros seguidores históricos temáticos, que permitem substituir o tema estudado (a Justiça, a propriedade, o mutualismo, por exemplo) na longa duração, afim de determinar as leis da sua evolução.
Assim, na Terceira Memória sobre a Propriedade, Proudhon deduz do seu sobrevoo da história que a humanidade avança irresistivelmente em direcção à igualdade das condições e à abolição da propriedade. Mas este avanço da humanidade faz-se lentamente e Proudhon está ansioso para dar ao povo o sentido do tempo (B-A-BA da história…) demonstrando-lhe que a duração é indispensável para toda a mudança e que ele não serve mesmo para apressar os acontecimentos:
“Cada um de nós é o fruto do tempo e aproxima-se à sua hora”.
Do mesmo moda, nas Confissões de um Revolucionário, Proudhon dá uma lição de história explicando como o passado construiu o futuro:
“Nada se destrói no mundo, nada se perde: tudo se desenvolve e se transforma sem parar. Tal é a lei dos deres, a lei das instituições sociais.
O Cristianismo… o Governo… a Propriedade não se podem aniquilar totalmente. Qualquer transformação que eles façam para subir, estes elementos substituirão sempre, pelo menos na sua virtualidade, afim de imprimir sem parar o mundo; pela sua contradição essencial, o movimento”
Proudhon manifesta aqui um sentido histórico notável, a sua filosofia do movimento e do progresso permite-lhe pensar ao mesmo tempo na mudança e na continuidade, que são os dois compostos da evolução das sociedades humanas.
Na sua última obra, que é uma espécie de testamento dirigido às classes operárias, Proudhon, procurando fazer compreender ao povo o que é uma verdadeira revolução, dá uma última lição de história:
“Uma revolução social como aquela de 1789, que continua, sob os nossos olhos, a Democracia operária, é uma transformação que se cumpre… É um sistema que substitui a um outro… Mas esta substituição não se faz num instante, como um homem que muda de costume ou de cor… Uma revolução verdadeiramente orgânica, produto da vida universal, ainda que ela tenha os seus mensageiros e os seus executores, não é verdadeiramente a obra de ninguém. É uma ideia, primeiramente elementar e que pontua como um germe… e que de repente, como o glande esconderijo na terra, como o embrião no ovo, toma um crescimento imprevisto, e das suas instituições enche o mundo”.
No fim da sua vida, Proudhon está sempre inquieto em esclarecer o povo sobre a natureza e as modalidades das mudanças que é preciso operar para fazer reinar a Justiça, o que representa a única verdadeira Revolução. Ele insiste particularmente sobre a complexidade e a progressividade do fenómeno, para evitar que o povo não se desanime diante da tarefa que permanece por cumprir, apesar de todas as revoluções que se sucederam desde 1789. Graças ao estudo da história, Proudhon quer dar mais eficácia à acção do povo e indicar-lhe a boa direcção a tomar: segundo ele, isto não é uma desordem brusca do poder, um lugar que vai mudar o destino do povo, mas uma mutação lenta e profunda do sistema de produção e das mentalidades pelo federalismo e mutualismo que instaurará uma verdadeira democracia política e económica.
No desígnio de instruir o povo, a pedagodia histórica de Proudhon caracteriza-se também pelo seu aspecto concreto e vivo que se manifesta pelo recurso às anedotas e às comparações. Efectivamente, o filósofo embeleza as suas obras e justifica este método:
“Talvez me aproximarei de não me ser julgado aos factos da história … e de ter dado nas minhas dissertações um certo lugar à anedota. Eu pensei que a ciência dos hábitos tornando-se toda experimental, a experimentação não devia rejeitar nada, apenas mutilar-se e não cumprir com a verdade. Todo o acto da vida pública e doméstica, colectiva e individual é aos meus olhos, do domínio da ciência; e isso não é, certamente, a parte menos instrutiva”.
Proudhon está pois, inquieto em não fazer uma história, dividida da vida, mesmo da vida quotidiana, pois para ele a ciência histórica engloba todos os aspectos da existência da humanidade, estes iluminam-se uns aos outros. Proudhon é aqui muito moderno, ele antecipou sobre a história do século XX, que está pendente, depois da escola dos Annaos, sobre o quotidiano, e que se quer uma história total, procurando revelar o movimento humano na sua complexidade.
Aplicando ele mesmo o método que preconiza, Proudhon apela nas suas obras a inúmeras comparações entre os acontecimentos históricos de períodos por vezes elogiados. Mas as comparações mais frequentes são aquelas entre o século XVIII e XIX e, sobretudo aquelas entre 1789 - 1793 e 1848, que abundam. Esta história comparativa é muito moderna e ao mesmo tempo muito pedagógica, pois os acontecimentos pontuais que são as revoluções, uma vez substituidas na continuidade histórica, tomam o seu verdadeiro sentido e revelam-se sob todos os seus aspectos.
Assim, a revolução de 1789 aparece ao filósofo sob uma dupla visão: mesmo se ela representa uma curva inovadora pelas inúmeras mudanças políticas e sociais que ela transporta, isso não e mesmo uma criação dos revolucionários. Efectivamente, Proudhon, comportando-se como um verdadeiro histórico, vê em cada revolução ao mesmo tempo, a fila precedente e uma etapa no percurso da justiça através dos séculos, como ele afirma em 1848 no seu Brinde à Revolução:
“As revoluções são as manifestações sucessivas da justiça na humanidade. É por isso que toda a revolução tem o seu ponto de partida numa revolução anterior”.
Para o filósofo, os acontecimentos de 1789 e 1793 estão pois a ser repensados no quadro histórico da longa duração, aquela da revelação progressiva à humanidade da justiça que cada nome detém em si mesmo mas que desde há muito permanece enterrada. Assim, para explicar o insucesso da 2ª República, Proudhon recorreu à comparação de 1789 e 1793, o que lhe permite ver que ela não tinha cumprido as lições da primeira revolução; isto constata-se tendo por objectivo tirar desse insucesso as conclusões para a acção a chegar.
Enfim, a terceira característica da pedagogia histórica proudhoniana é a sua reivindicação da cientificidade. Esta está particularmente clara no discurso preliminar da justiça, onde o filósofo torna como modelo a física e mais precisamente o método experimental, do qual Claude Bernard será o propagador:
“Ora, mesmo que as ciências físicas não se possam construir à priori sobre as noções puras, requerem a observação dos factos; até mesmo a ciência da justiça e dos hábitos não pode sair de uma dedução dialética de noções…
Assim, eu não preconizo; eu observo, eu descrevo, eu comparo. Por este método, no qual o secreto consiste em seguir a história, explica-se e as aberrações do sentido moral junto dos antigos e a superioridade crescente dos modernos”.
Proudhon está pois inquieto ao repudiar tudo à priori, e toda a teoria revestida de factos, o que representa uma concepção completamente moderna do mestre histórico e no seu cuidado de racionalidade ele parece fazer da história uma verdadeira ciência, igual às ciências ditas experimentais:
“Depois desta concepção filosófica da história, os factos gerais classifica-se, produzem-se um ao outro com rigor de dedução que nada nas ciências positivas ultrapassa; e como é possível à razão dar a filosofia, é possível à prudência humana dirigir o caminho”.
Proudhon adopta aqui uma atitude próxima daquela dos positivistas em voga na sua época, e até dos cientistas que, no fim do século XIX, afirmaram que a ciência pode explicar tudo. Mas na mesma obra, mais para além das cento e vinte páginas, o filósofo bisontin reconhece os limites da nossa compreensão dos acontecimentos históricos:
“Não é necessário explicar tudo em história: isso seria uma pretensão tão cheia de riscos como desprovida de filosofia”.
Esta afirmação mais contida corresponde ao bom sentido que Proudhon habitualmente testemunha, mas estas duas posições face à história surgem bem contraditórias. Isto não parece excepcional junto de Proudhon, que reconhecia voluntárias as variações das suas opiniões, que eram devidas ao seu temperamento fogoso e polémico: dos entusiasmos súbitos que o conduziam às declarações que ultrapassariam o seu pensamento e sobre às quais ele regressava.
Mas se Proudhon ver bem os limites da explicação dos factos históricos, ele não renuncia em procurar a objectividade. Assim, nas Confissões de um Revolucionário, ele insiste sobre a sua vontade em expôr todos os pontos de vista sobre as causas das jornadas de 1848:
“Eu vou, fiel histórico, dar a contrapartida desta narração, para que o leitor saiba quais foram por um lado e por outro as intenções, que parte de responsabilidade chega a cada um deste drama fúnebre”.
Proudhon dá aqui uma lição de imparcialidade. Efectivamente, mesmo tendo sido um dos actores políticos da 2ª República, ele chegaria a analisar com uma grande lucidez as causas do insucesso da democracia se tanto a esquerda como a direita, ele não hesita em reconhecer os seus erros, sobretudo no que diz respeito às jornadas de Junho. Ele confessa não as ter visto vir, muito ocupado com os trabalhos da assembleia onde ele ocupa um cargo. Ele toma consciência com muita clarividência do mal dos governos modernos, a saber, a sua tendência em isolar-se no microcosmo político e em separar-se do povo.
Contudo, Proudhon nem sempre colocou em prática os seus próprios princípios de objectividade. Existem muitos partidos tomados: assim, ele não gosta de Louis Blanc, símbolo para si de Estadismo que ele abomina e ele á bastante severo a seu respeito; do mesmo modo, ele é parcial a respeito de Robespierre, a quem ele não perdoa o culto do Ser Supremo.
Por outro lado, se se considera que o objectivo de Proudhon é inventar uma pedagogia que permite ao povo compreender o movimento histórico, pode-se objectar que a síntese recomendada não é muito acessível a um homem sem instrução, pois é necessária uma cultura considerável para saber reencontrar, no enredo e na multiplicidade dos acontecimentos, os grandes traços da evolução histórica.
A realização de uma síntese é um exercício que necessita de uma capacidade de abstração, pouco à disposição do maior número e que deverá ser efectuada pelos especialistas, dos quais o povo dependerá, o que diminuirá a sua capacidade em tomar conta e transformar-se autónomo. A “démopédie” é mais difícil a realizar que a proclamar…
Pode-se também censurar em Proudhon a falta, por vezes, de espírito crítico relativamente à interpretação do passado, quando ele recorre à história como critério de uma teoria. Ele esquece que se pode fazer, dizer não importa o quê aos acontecimentos históricos. A provar, as polémicas que rebentaram entre os históricos a propósito do Terror e de Robespierre, desde o século XIX até aos nossos dias. Enfim, o povo não arrisca em perder-se no meio dos exemplos múltiplos históricos que Proudhon toma nas épocas mais variadas, sem nenhum cuidado de cronologia?
No limite deste estudo sobre Proudhon e o ensinamento da história, nós não podemos recusar ao filósofo bisontin reais qualidades de histórico e de padagogo. Efectivamente, o seu pensamento é intrinsecamente histórico, pois ele enraiza-se no tempo e, sobretudo na longa duração que tanto custou a Fernand Braudel…
Por outra parte, Proudhon está inquieto para dar ao povo uma educação apropriada, não copiada sobre aquela que recebia a burguesia da sua época. É assim que a pedagogia da história de Proudhon aparecia fortemente inovadora, privilegiando a síntese temática, a longa duração e os estudos comparativos, que foram introduzidos no ensinamento histórico dos nossos liceus ao longo dos últimos vinte anos.
Afinal de contas, Proudhon é um percursor da história do século XIX, ele que não exclui nada do campo desta disciplina, aberto sobre a via, afim de permitir aos homens de serem os verdadeiros actores do seu destino.